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De um ponto de vista cultural, este museu que agora se
projeta, nasceu do carisma de João Henrique Silva e sua marca exemplar
de chapéus. A HengoHique Chapéus pretende ser um pólo de uma rede mais vasta a que
chamamos a Rota do Chapéu e a Rota da Indústria. No que respeita
à Rota do Chapéu, esta integrará naturalmente o museu, mas
também, os bairros operários que ainda hoje são testemunho
da vivência operária de há décadas, unidades industriais produtoras
de chapéus e seus componentes, ainda em laboração, lojas de
comercialização de chapéus, e a Associação Cultural Alão de
Morais que, através dos seus três departamentos, o Centro
de Arte, a Academia de Música e o Instituto de línguas, contribuirá
para um tratamento culturalmente mais abrangente do fenómeno
que se pretende musealizar.
A Rota da Indústria abarcará desejavelmente dois níveis de
distância geográfica distintos: a região de S. João da Madeira
e uma área mais vasta que poderá englobar outras unidades
museológicas do Norte do País e outras regiões eminentemente
industrializadas, numa lógica de apresentação e explicação
global do fenómeno da industrialização em Portugal na última
dezena de décadas.

O que é o Museu da Indústria de Chapelaria?
No que diz respeito aos seus aspectos conceptuais, foi desde
sempre objectivo termos um museu vivo, em contacto com a população
local e com os seus públicos existente e potencial. Mais do
que uma mera "exposição de tesouros", o museu será o local
do "ver e aprender a fazer" e até do "fazer" verdadeiro. Para
tal serão concebidas exposições com áreas de actividades para
o público (para os vários públicos), que permitirão ao museu,
expor, explicar, ensinar, fazer e deixar fazer.
A recriação de ambientes (sons, cheiros, cores) é uma das
apostas mais difíceis num museu deste tipo, mas pode resultar
fundamental para a satisfação do público. São exemplos o ruído
de uma nave industrial em laboração, o de um refeitório de
fábrica em hora de refeição, o do apito que marcava o ritmo
do dia de trabalho substituindo-se ao campanário das actividades
rurais ou ainda o cheiro dos tintos usados para colorar os
chapéus.
O museu não se limitará por isso a mostrar as maquinarias,
quedas, mudas, limpinhas e oleadas: o museu vai recriar ambientes,
fornecer ao visitante experiências multisensoriais, dar ao
seu público uma visão tão próxima quanto possível da das realidades
que habitaram um dia aquelas paredes.
Por outro lado o museu pretende-se unido à comunidade. Para
tal iremos trazer para o museu os que trabalharam na fábrica
que ocupou o edifício, os seus ambientes familiares, angústias
e alegrias, vida quotidiana, o caminho para o trabalho, o
vestir e o despir da roupa de trabalhar, a hora da refeição;
memórias que se perdem inevitavelmente com o correr dos anos
se não forem recolhidas e preservadas. Não há património sem
memória e a memória tende a esvair-se se não a preservarmos.
Será ainda necessário fazer entender ao público o que era
viver integrado na indústria dos chapéus: o que se podia comprar
com um ordenado de operário, de empregado de escritório, de
dono da fábrica; o que se comia e se bebia no refeitório da
fábrica, as anedotas que se contavam; como se chegava à fábrica
(a pé, de bicicleta...); enfim, como era a S. João da Madeira
do tempo em que se usava chapéu.
O uso do chapéu é outra análise que o museu vai realizar:
usar chapéu é um acto social que merece estudo e apresentação
num museu dedicado à produção dos chapéus. Quem usa/usava
chapéu? Como o usava? Em que circunstâncias? Quanto custava
usar chapéu?
O chapéu usava-se na cabeça mas usava-se também na beira
de um passeio pedindo esmola, usava-se quando o sol estava
a pino e quando chovia, não se usa dentro de casa, tira-se
quando se quer cumprimentar, tira-se quando toca o hino ou
sobe a bandeira nacional...
Não se sai à rua "descoberto" ...
O chapéu foi objecto de literatura e de cinema, de publicidade
e de comércio, não só de indústria, e estas outras facetas
estarão também presentes no museu. Estas análises ultrapassam
em muito o reduto da indústria de chapéus, mas interessam
ao museu porque interessarão certamente ao seu público.
Um museu, portanto, que trace não só a indústria dos chapéus
mas também a vida dos homens que trabalharam nessa indústria,
e dos que compraram os ditos chapéus, e daqueles que viveram
na S. João da Madeira que produzia esses chapéus. Um museu
de máquinas que foram usadas por homens que ainda podem dar
o seu testemunho acerca das tais máquinas; porque um museu
de maquinaria sem homens é um museu de ferro velho, um necrotério
mecânico que dificilmente despertará mais que um fugaz interesse.
Cada objecto que o museu expuser irá ter uma história para
contar; cada história contada evocará memórias de pessoas,
algumas ainda vivas e que podem estar lá, contribuindo para
fazer do espaço museológico um espaço socialmente activo,
culturalmente interessante, pedagogicamente útil.

Como é o museu?
A localização do futuro museu é líquida: será utilizada parte
do que actualmente resta da que foi uma das instalações industriais
de S. João da Madeira, aquela que exactamente produzia chapéus.
Do complexo industrial, originalmente composto por uma vasta
área central cercada por alas de edifícios, resta a ala principal,
com fachada quase intacta. Será esse o edifício do museu,
a que se anexa uma esplanada actualmente desimpedida de construções.
O edifício conta com caves, piso térreo e primeiro andar,
numa distribuição quase simétrica se tomado por eixo a entrada
central, perpendicular à estrada.
O edifício está, em alguns pontos, em muito mau estado de
conservação o que implicará algumas intervenções profundas.
Enquanto unidade industrial, existiam quatro áreas específicas
principais, a saber: os armazéns de matérias primas; a zona
de fabrico; o armazém de produto fabricado e as instalações
do pessoal (escritórios, bar e refeitório, atendimento ao
público, sanitários, vestiários).
Como opção defensável, pretende-se manter como princípio
organizativo dos espaços museológicos, a divisão funcional
própria do edifício.
O museu reflectirá assim parte do ambiente industrial que
o edifício conheceu quando nele se exercia a sua função original.
Neste sentido foi fundamental realizar o levantamento das
divisões (mesmo as amovíveis ou temporárias) impostas aos
espaços arquitectónicos, tornando-se ainda necessário preservar
todo o mobiliário ainda existente nas instalações ou outro
de que se tenha notícia, se não materialmente por manifesta
impossibilidade, pelo menos em registos fotográficos ou desenhados.
Por outro lado tornou-se essencial a realização de um inventário
completo de todo o espólio existente, assim como a preservação
da documentação encerrada na cave do edifício e de outra que
se relacione com a indústria em questão.
Sumariamente o futuro museu contará com as seguintes instalações:
- para as exposições e outras actividades, serão criadas
áreas de exposição permanente ou de longa duração; áreas
de exposições temporárias; um pequeno auditório, com possibilidade
de passar diaporamas ou pequenos filmes e uma sala de actividades
didáctico-pedagógicas, especialmente dedicadas ao público
em idade escolar;
- para o público pretende-se disponibilizar um centro de
documentação/biblioteca (especialmente voltado para a história
da indústria da região); uma sala de trabalho; o bar e restaurante,
um parque de estacionamento (subterrâneo) e a loja do museu;
- para os serviços do museu: serão criados gabinetes para
a equipa que trabalha no museu (director, conservadores,
etc.); armazéns para espólio em reserva; sala destinada
a operações de conservação preventiva e/ou restauro; áreas
técnicas e departamento educativo;

Como será?
Não se pretende seguramente um museu que se faz uma vez e
que permanecerá imutável perpetuamente, pelo que ele contará
com a medida da mudança no seu próprio programa. O espólio
poderá ser acrescentado, as instalações poderão prever várias
fases, as atracções que o museu virá a criar poderão também
ser planeadas de acordo com um calendário alargado.
O público deverá colher a ideia de que o museu, se re-visitado
passados alguns meses ou poucos anos, não será o mesmo. A
mensagem de que a re-visita vale a pena é uma das formas actualmente
mais usadas pelos museus para atrair e manter públicos fiéis.
Mas isso exige que o museu vá alterando os seus conteúdos,
e por isso se fala cada vez menos de "exposições permanentes"
e se concebe como mais razoáveis as "exposições de longa duração".
No caso vertente obviamente que algumas exposições, pela própria
natureza do exposto, serão permanentes. Mas uma parte importante
do museu pode ser concebida em termos de comportar alterações
planificadas.
Mas sobretudo o museu,
- não será uma instituição isolada. Quer isto dizer que
o museu se integrará num plano mais vasto (regional e nacional)
de ordenação do património cultural, edificado, arqueológico,
etc., devendo ser entendido como um núcleo a partir do qual
outros pólos possam vir a ser criados. Estabelecer-se-á
assim uma rede de instituições com fitos comuns e que partilharão
recursos, numa gestão integrada dos mesmos. Este objectivo
implica uma planificação a médio prazo e uma visão do museu
não como uma célula isolada mas como uma peça de um conjunto.
- será o ponto de partida para itinerários culturais que
toquem outros pontos de interesse da história da indústria
do município e da região, ou mesmo que alarguem o âmbito
da visita a outras temáticas. Assim, o visitante não se
ficará pela visita ao museu mas terá ao seu dispor programas
variados que, percorrendo a região, lhe dêem uma visão mais
apurada e interessante da realidade municipal ou regional.
Como exemplos, poder-se-á apontar a passagem pelo bairro
operário ou uma visita programada a unidades industriais
ainda em laboração, que seriam sugeridos em "pacotes" preparados
para públicos-tipo variados. Desta forma o museu cumprirá
uma das suas funções principais, a de dinamizar a vida cultural
e social da comunidade em que está inserido e a de promover
o conhecimento sobre essa comunidade, nas suas mais variadas
facetas.
Pretende-se, em suma, que este venha a ser, como muito
carinhosamente costumamos dizer, um museu de se lhe tirar
o chapéu...
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